“O que fizemos foi desafiar os investigadores a encontrar soluções para aquilo que são os resíduos que produzimos nas nossas unidades industriais: uma de corte de couro e outra de solas para pantufas, num material sintético que é o EVA”, explica Fernando Merino, director de inovação da ERT
Não há dúvidas que a sustentabilidade se tornou um no mantra da indústria têxtil portuguesa, e nesta luta para tornar cada tecido mais verde há uma frente incontornável: o combate ao desperdício. No projecto Texboost, a ERT interiorizou este objetivo, procurando uma nova vida para os resíduos de couro e EVA que resultam das suas linhas de produção. Em parceria com os centros de investigação, a empresa de São João da Madeira está a finalizar agora um novo revestimento têxtil, que é sugestivamente apresentado num “Vestido de Sereia”.
O produto é o resultado de três anos de trabalho, que agora entram na sua reta final. O Texboost – um projecto mobilizador que reúne dezenas de empresas de toda a fileira têxtil – foi lançado em 2017 e assumiu a Economia Circular como uma das suas linhas mestras. A ERT percebeu que era hora de olhar para os desperdícios da sua produção. “O que fizemos foi desafiar os investigadores a encontrar soluções para aquilo que são os resíduos que produzimos nas nossas unidades industriais: uma de corte de couro para revestimentos de interiores automóveis, e outra de solas para pantufas, que cria muito desperdício num material sintético que é o EVA [espuma de acetato-vinilo de etileno]”, explica Fernando Merino, director de inovação da empresa.
Ao desafio, os investigadores responderam com a criação de um novo revestimento têxtil, que poderá ser aplicado noutros artigos têxteis. “Consiste num processo que extrai e reaproveita uma parte da proteína do couro, o colagénio, transformando-o de resíduo sólido para um estado liquido, que permite depois a sua aplicação noutros produtos têxteis”, resume Joaquim Gaião, Responsável de inovação e Desenvolvimento do CTIC - Centro Tecnológico das Industrias do Couro.
O extrato de couro é depois conjugado com a EVA, para atingir o resultado final. “Há a possibilidade de integrar os dois, estamos ainda a estudar como funciona essa simbiose. A EVA acrescenta propriedades diferentes, sobretudo em termos de toque. O produto extraído do couro por si só tem limitações e vai obrigar sempre a uma conjugação com outros materiais”, explica o representante do CTIC.
Apesar de ainda estar em desenvolvimento – o próprio Texboost foi prolongado até ao final de 2020 – o novo artigo foi já apresentado em fevereiro, no MODtissimo do Aeroporto, aplicado num vestido intitulado Mermaid. “A designer criou um vestido com fórmulas complexas para atrair as atenções e surgiu este modelo semelhante a uma sereia”, comenta Fernando Merino. Mas tal como na mitologia, o feitiço da sereia poderá ganhar muitas formas: “O vestido é uma peça de demonstração, mas haverá outros produtos, como peças de mobiliário, peças de automóveis, ou o revestimento de paredes”, acrescenta.
Para já, a performance do produto está a ser testada no CITEVE, que vai apurar atributos como a solidez à luz ou à fricção. “Notamos algumas semelhanças ao próprio couro, mas o processo ainda está em desenvolvimento”, alerta Joaquim Gaião. Do lado da ERT, o objetivo é afirmar esta solução sustentável como uma aposta de futuro. “Neste momento já temos parceiros no sector automóvel interessados neste tipo de acabamentos com resíduos de couro. E vamos criar um showroom onde serão apresentados todos os produtos, numa divisão completa, com os interiores, o mobiliário e todas as peças de vestuário com esta nova solução”, avança Fernando Merino.
O produto
Mermaid – Vestido de Sereia
Desenvolvido pela ERT em parceria com CITEVE, CeNTI e CTIC
O que é? Uma nova solução de revestimento têxtil obtido a partir do reaproveitamento de restos de couro e EVA Para que serve? Aplicação do vestuário, mobiliário e decoração ao revestimento de piso, paredes ou interiores de automóvel Estado do projeto? Em fase de finalização e com pedido Internacional de patente
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