A necessidade aproximar cadeias de produção, de resposta rápida e séries mais curtas está a fazer com que as grandes marcas voltassem a olhar para a Europa como parceiro industrial, e Portugal está bem no centro da equação. Casa das pequenas e médias empresas por excelência, a questão agora prende-se com a capacidade de resposta da ITV nacional. E se há quem defenda que a única opção é “Go big or go home”, há quem acredite também que, mais uma vez, o tamanho não é o que mais importa. “Que venham eles” parece ser o lema dos empresários portugueses, que não podiam estar mais satisfeitos com as mudanças.
Prontos para trabalhar e conscientes das suas capacidades, há empresários que se mostram prontos para avançar com alianças e unir esforços, mas as opiniões dividem-se e o caminho pode passar também pela diferenciação e pelo serviço premium que só a pequena escala consegue garantir.
“As têxteis portuguesas precisam de criar dimensão para se adaptarem às novas necessidades do mercado e nós estamos totalmente abertos e receptivos para, em conjunto com outras empresas, dar o passo rumo ao futuro”, afirma, peremptório, António Falcão, CEO do grupo Falcão, que não tem dúvidas que a emergência de grandes grupos – seja através de fusões ou de aquisições – será determinante para a competitividade da ITV portuguesa.
Na mesma perspectiva, Miguel Pedrosa Rodrigues, Administrador da Pedrosa & Rodrigues, não tem dúvidas de que é precisamente a falta de dimensão que condiciona o desenvolvimento do setor têxtil em Portugal. “A ausência de escala das empresas do sector faz com que o desenvolvimento estratégico, comercial e tecnológico seja tímido. Logo, a emergência de grandes grupos é de louvar pois trazem o potencial de missões e propósitos mais elevados, com o benefício adicional de poderem na sua esteira criar oportunidades para as outras empresas mais pequenas”. Para o empresário, a lógica de cluster atomizado e diverso em que a ITV portuguesa opera “é proveitoso porque permite uma enorme flexibilidade, adequação às contínuas mudanças do mercado e, nas condições certas, cria valor pelo alinhamento de esforços de inovação”, completa.
Da mesma forma, Marco Costa, CEO e Business Development da Blackspider, não tem dúvidas de que “o surgimento de grandes grupos vai sempre favorecer a competitividade da ITV portuguesa e por isso acho benéfico que as empresas possam optar pela fusão como forma de o sector ganhar mais dimensão”. Para isso, no entanto, defende que é essencial o desenvolvimento de novas leis por parte do Estado que favoreçam mais as empresas e impulsionem a competitividade do sector perante os concorrentes. “É crucial que do ponto de vista fiscal haja uma diminuição dos impostos e cabe ao Estado criar essas condições mais favoráveis, principalmente para quem vende. Tudo isto em simultâneo com a formação de recursos humanos qualificados e, consequentemente, com o aumento da qualidade e produtividade”
São as novas exigências do mercado, tais como a digitalização e a sustentabilidade, aliadas à prometida reindustrialização da europa, que tornam urgente e inevitável o redimensionamento das empresas, defende António Falcão. Caso isto não aconteça, está em risco a capacidade de Portugal competir com o tecido industrial têxtil dos países seus concorrentes.
Patrícia Ferreira
“Deveríamos ajustar-nos aos novos pedidos que o mercado nos tem feito”
“Atualmente, em Portugal, existem talvez uma dúzia de empresas com uma dimensão razoável, e quando digo razoável estou a falar de uma faturação mínima de 40 ou 50 milhões de euros. Mas o ideal não é uma dúzia de empresas mas sim uma centena!”, sublinha o empresário, que aponta a uma mudança de mentalidade por parte dos empresários do setor.
“Há que pôr de parte a ideia do industrial antigo, em que há um líder, um patrão, e que só ele é que manda e decide. Hoje, quem lidera tem de se impor pela competência. É preferível ser acionista e deter 10% de uma empresa que tem futuro e que vai retribuir os dividendos, do que ser dono a 100% de uma empresa que em meia dúzia de anos deixa de ter condições para sobreviver. Se formos competentes e nos juntarmos com um ou dois parceiros e conseguirmos transformar essa empresa numa empresa grande e forte, eu estou aberto a isso”, avança o líder do grupo Falcão.
Mais cauteloso, António Cunha, Sales Manager da Orfama, considera que o aparecimento de de grandes grupos não é só por si sinónimo de competitividade para a ITV portuguesa. “Para mim seria regressar ao passado, quando Portugal se afirmava como produtor de grandes volumes, mas de baixo valor acrescentado. Acho que agora o caminho, pelo menos para a Orfama, é o de apostar nos segmentos de alto valor acrescentado, com produtos diferenciados, altamente sustentáveis e de alta qualidade.
E isso só se consegue com dimensões produtivas mais reduzidas”, assegura o sales manager, considerando que mesmo que Portugal apostasse na formação de grandes grupos têxteis, nunca conseguiria competir com países que têm disponível mão-de-obra muito mais barata.
“Esses países, como o Bangladesh, têm muita população e, consequentemente, muita mão-de-obra disponível, que está disposta a trabalhar em muito fracas condições e por pouco dinheiro. Em Portugal, a realidade é diferente: temos uma carência muito grande de mão-de-obra no sector, e mesmo que a tivéssemos em abundância, queremos dar-lhe condições e salários dignos. Ora, isso não se consegue com uma política de quantidades mas sim de qualidade”, reitera António Cunha.
O segredo poderá estar antes na cooperação entre as empresas em vez da fusão. “Foi graças à partilha de conhecimento e de custos de inovação que a têxtil se transformou numa indústria muito mais sedutora e responsável, que apresenta produtos diferenciados e, consequentemente, com maior valor acrescentado e preços de venda ao público mais elevados.
Marco Costa
“O surgimento de grandes grupos vai sempre favorecer a competitividade da ITV"
Penso que é nisso que temos de apostar”, completa.
Para José Armindo Ferraz, CEO da Inarbel, também a formação de grandes grupos deveria ser a última preocupação dos empresários portugueses. E acena igualmente com a questão da problemática da mão-de-obra como um dos principais entraves. “Para quê pensar em fundir empresas para dar resposta às encomendas se nenhuma delas tem mão-de-obra para na realidade executar os trabalhos? O problema é faltar capital humano para dar vazão às encomendas, essa é a verdadeira prioridade. Tudo o resto é tapar o sol com a peneira”, reitera o emoresário, que não vê a dimensão das empresas como problema no que diz respeito ao aumento da competitividade.
“Se eu preciso de ajuda, posso sempre recorrer à subcontratação, que é o que faço agora quando é necessário”, explica, acrescentando que não acha estar na altura para o setor se aventurar em grandes projetos. “A pandemia deixou as empresas com um cash flow muito baixo e mesmo com o aumento nas encomendas não está tudo resolvido. Para recuperar dos prejuizos vai ser preciso muito tempo”, avisa José Armindo Ferraz.
Consciente de que a pandemia serviu de alerta para os grandes grupos relativamente à sua dependência do mercado asiático, uma mudança de paradigma que pode colocar Portugal numa posição estratégica e de vantagem competitiva na Europa, Patrícia Ferreira, CEO da Valérius Hub, descarta, no entanto, que a dimensão seja indicadora de competitividade, colocando antes a questão na diferenciação e no serviço premium.
“A rápida resposta, a flexibilidade nas quantidades e a inovação associada à sustentabilidade são os fatores-chave para o sucesso, e não uma indústria de maior dimensão e capacidade. Deveríamos antes olhar para a indústria que temos com olhos críticos e ajustar-nos aos novos pedidos que o mercado nos tem feito”, explica Patrícia Ferreira, para quem a personalização será essencial num futuro próximo. “Não conseguimos isso com uma indústria massificada”, defende.
Para a gestora, Portugal apresenta um futuro risonho mas tem que continuar a evidenciar as suas competências a nível de inovação, uma vez que encontrar mão-de-obra qualificada e interessada em entrar no setor é cada vez mais difícil. “A nossa produção deve mesmo passar pelo desenvolvimento e pelo fabrico em Portugal. Se conseguirmos deixar cá o valor acrescentado, será sem dúvida um fator de valorização e competitividade”, completa.
Partilhar nas redes sociais