Seguinte Anterior
00/00
Direitos de autor
A somar aos exorbitantes custos de energia, o disparar das despesas com o transporte marítimo e a escalada dos preços das matérias primas, estão a criar um cocktail explosivo para as empresas e ameaçam o ritmo das exportações. E o pior é que a situação tende ainda a gravar-se. A diminuição dos impostos e preços da energia, aliadas a uma regulação europeia das tarifas dos transportes, são algumas das medidas reclamadas pelos empresários. Sobretudo, o que pedem é que não lhes cortem as pernas.
Apesar da reconhecida resiliência e capacidade de adaptação da ITV portuguesa, a escalada nos custos de contexto pode por em causa a competitividade das nossas têxteis. Um cenário com contornos ameaçadores, que está a asfixiar as empresas e que pode afetar seriamente a sua capacidade exportadora. 

Rui Martins, administrador da Inovafil, destaca logo à cabeça o aumento dos custos do transporte marítimo, que chegam a multiplicar por seis nos últimos tempos. “É um cocktail explosivo. Aos custos com a mão-de-obra, também numa tendência ascendente, juntaram-se os transportes marítimos, com um aumento de seis vezes no preço dos fretes. Uma situação ilógica e instável, que nem poderíamos imaginar acontecer nos dias de hoje”, explica o empresário. 

Um aumento por si só praticamente incomportável, mas que é ainda agravado pelo péssimo serviço prestado, com atrasos constantes e falta de informação de lead times. “Isto resulta em atrasos consecutivos e falta de credibilidade nas datas das entregas, tanto no mercado interno como no mercado externo”. E se nada pode ser feito no imediato relativamente aos custos das matérias-primas e aos transportes – “talvez apenas levar estas preocupações às mais altas instâncias europeias” –, Rui Martins aposta na diminuição dos custos da energia para dar algum fôlego às empresas. 

“Temos que continuar e reforçar o apoio à implementação de renováveis, e o mais brevemente possível baixar os custos das tarifas e impostos da energia cobrada à indústria. Continuamos a não olhar para o problema de frente e com a importância devida, pois baixar estes custos às empresas significa mais exportações, mais emprego e mais futuro!”, completa. 

Também o CEO da Inarbel, José Armindo Ferraz, não tem dúvidas de que os custos de contextos estão a asfixiar as empresas. "Os preços que se estão a praticar a nível da energia são uma vergonha. Têm vindo a aumentar sempre nos últimos anos e estão agora em valores incomportáveis. Há uns anos o preço do barril do petróleo estava nos 150 dólares e agora está nos 40! Se houve uma queda tão acentuada do preço do barril, porque é que isso não se manifesta numa descida do preço dos combustíveis?”, questiona o empresário, à energia junta o disparar dos fretes marítimos.  “Aqui há tempos, um contentor tinha o custo de 2500 ou três mil dólares e neste momento esse valor está em 15 mil dólares! Não conseguimos ser competitivos com custos tão elevados”, constata, apontando o dilema atual das empresas: “Para os conseguir suportar, temos de aumentar ao produto final e o cliente, como é óbvio, não entende esses aumentos.
Como podem os custos de contexto afetar as exportações?
João Carvalho “A nossa principal concorrência localiza-se em países onde os custos de contexto não são tão elevados"
Só nos resta suportar.”

Um caminho alternativo, para além da óbvia descida do preço da energia e das taxas que a ela vêm associados, poderia passar, na opinião de José Armindo Ferraz, pela descida dos impostos, para que esse valor fique retido nas empresas e ajude a suportar estes custos. “O Estado tem que ajudar as empresas. Nós queremos dar riqueza ao país mas assim é impossível, não conseguimos sobreviver. Só peço que nos deixem trabalhar!”, reitera o administrador. 

Para António Teixeira, administrador de A Penteadora, a matemática da competitividade do sector é fácil de fazer, e o resultado está longe de ser positivo. “O aumento de 900% no custo do transporte marítimo e de 10% no transporte terrestre são impossíveis de absorver e o aumento das matérias-primas, num momento onde a procura é reduzida, pode resultar numa atividade especulativa. Tudo isto coloca a indústria transformadora sobre uma enorme pressão”, explica.

Para além disso, o atraso na receção de matérias-primas e o aumento do custo das mesmas, colocam em causa os contratos estabelecidos e obrigam as empresas a diminuir o seu lead-time. “Naturalmente, e estando Portugal no extremo da Europa, estes lead-times têm um impacto forte na obtenção e cumprimento de prazos e em consequência retiram capacidade exportadora”, sentencia o empresário que fala num “peso enorme” dos custos de contexto: “Exportamos 98% da nossa produção e a nossa exportação faz-se em 90% por via terrestre (camião) e 10% por via marítima e/ou aérea, pelo que é fácil de imaginar o peso destes aumentos de custos e de transit-time na atividade da empresa”. 

Para o administrador de A Penteadora tudo não passa de atividade especulativa, até porque o crescimento do volume de negócios de 2020 para 2021 não foi o suficiente para justificar a ausência de transporte marítimo disponível e tão-pouco o aumento exponencial do seu custo, pelo que diligências junto das entidades europeias devem ser tomadas no sentido de regularizar a situação. Já a nível nacional, importa para o empresário perceber por que razão existe menor oferta de transporte terrestre e o consequente aumento do seu custo. “A existência de uma rede de transporte terrestre forte e competitiva faz com que as empresas exportadoras sejam também elas fortes e competitivas”, completa.

Convicto de que os atuais custos de contexto prejudicam – e muito – a viabilidade das empresas exportadoras, João Carvalho, CEO da Fitecom, está mais do que certo que o mercado atual não vai aceitar as subidas de preço resultantes do aumento desses custos.
Como podem os custos de contexto afetar as exportações?
Rui Martins “Baixar os custos significa mais exportações, mais emprego e mais futuro!”
“A nossa principal concorrência localiza-se em países onde os custos de contexto não são tão elevados, deixando-nos assim em desvantagem. Mesmo em indústrias que competem pela diferenciação, como é o nosso caso, o preço dos produtos sofre um incremento natural e, consequentemente, as empresas vêm a sua competitividade afetada”, explica, dando conta e que para a Fitecom os custos do último quadrimestre foram bastante mais elevados do que os sentidos até há dois anos. Agora, a única esperança é que “o nosso governo encontre soluções estruturais para colmatar estes custos e que no decorrer de 2022 haja um retorno à normalidade, com a estabilização dos mercados”.

Entretanto, o presidente da ANIL - Associação Nacional Dos Industriais De Lanifícios teme pela viabilidade económica das empresas. “Na situação atual, de elevada debilidade das empresas – resultado da longa duração da pandemia –, os custos de contexto são, muitas vezes, insuportáveis para as empresas, contribuindo fortemente para eventuais encerramentos”, adverte José Robalo. Até porque, acrescenta, “não estamos só a falar dos custos de energia, matérias-primas e transportes, mas também de uma panóplia de taxas, impostos, serviços, etc., que, como é óbvio, vão retirar competitividade às nossas exportações”. 

Uma nova regulamentação, que acabe com monopólios e preços políticos criados em anteriores governos e que defenda as empresas produtoras de bens e serviços, é, na opinião do presidente da ANIL, essencial para que a nossa indústria se mantenha competitiva nos mercados internacionais.

Mais pragmático, o presidente da ATP - Associação Têxtil e Vestuário de Portugal aponta antes às soluções possíveis para dar continuidade ao caminho ascendente das exportações. E são dois os cenários possíveis: “Ou as empresas passam o acréscimo nos custos de contexto para os clientes e as exportações até podem aumentar, ou, em caso alternativo, serão as empresas a absorver no todo ou em parte esses aumentos e diminuir as suas margens”. 

Mário Jorge Machado avisa que “se nada disto for feito perdem-se exportações”, mas mostra-se convicto de que “será a primeira circunstância a prevalecer, até porque no contexto internacional os clientes sabem que as coisas se passam assim e estão preparados para acomodar estes impactos. Por isso, em princípio, o impacto do aumento dos custos elegíveis para a produção será pequeno”, completa Mário Jorge Machado.

Fique a par de todas as noticias, eventos e entrevistas.
Subscreva a Newsletter

    Submeter