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Sabemos o que queremos e para onde vamos. Estamos no bom caminho, que é do continuar a subir na cadeia de valor, seja na moda, seja nos têxteis técnicos. E como não basta saber fazer - e também é preciso fazer saber que sabemos fazer - não podemos abrandar o esforço de promoção e imagem da nossa indústria por esse mundo fora. Se não nos desviarmos desta rota, evitaremos obstáculos como o Brexit, e as exportações de têxteis e vestuário continuarão a subir, mesmo em contraciclo com o resto das exportações portuguesas
Nos primeiros cinco primeiros meses do ano, as exportações da ITV fixaram-se em 2,1 mil milhões de euros, registando uma subida de 6% face a igual período de 2015, em contraciclo com o conjunto das exportações portuguesas.

Só no mês de maio, as exportações de têxtil e vestuário cresceram 9%, o que ajudou a balança comercial do setor a reforçar o seu saldo positivo para 532 milhões de euros e uma taxa de cobertura de 134%.

Tendo a ITV a ambição de atingir 5.000 milhões de euros de exportações, o que precisa fazer para chegar lá depressa? Paulo Vaz, diretor-geral da ATP, considera que em equipa ganhadora não se mexe:

“Temos de prosseguir a estratégia e o esforço até agora realizados, que têm sido a chave da reabilitação e recuperação do setor. Ou seja, apostar no valor ao cliente e não na competição pelo preço, o que significa oferecer produtos e serviços diferenciados e de alta qualidade, com elevados níveis de eficiência, com inovação tecnológica nos materiais, processos e funcionalidades, e diversificar atividades para ascender na cadeia de valor, seja na moda seja nos têxteis de maior tecnicidade”.

Artur Soutinho, CEO do grupo de têxteis-lar MoreTextile (que reúne António Almeida & Filhos, Coelima e JMA), concorda: “É preciso continuar a progredir na cadeia de valor e a produzir e exportar produtos com maior valor acrescentado. O caminho para aumentar as exportações em valor absoluto é apostar no serviço ao cliente, marcas próprias e produtos tecnologicamente mais evoluídos”.

Como exportar rima com internacionalizar, Paulo Vaz afirma ser imperioso dar que continuidade a ações fortes como a participação em feiras e missões comerciais, tanto em mercados tradicionais, para os fixar e conquistar segmentos de compra mais valorizados, como em mercados emergentes ou não tradicionais, para diversificar destinos e abrir caminho para novos negócios e parcerias.

De acordo com o diretor-geral da ATP, as ações que a Associação Selectiva Moda está a realizar, tanto no domínio das feiras internacionais (85 ações em 35 países em 2016) como na promoção da imagem com o “Fashion From Portugal”, são fundamentais para manter uma dinâmica positiva, “especialmente em tempos de alta volatilidade e imprevisibilidade, onde as ameaças se sucedem, mas onde as oportunidades igualmente aparecem”.
O que fazer para exportar (ainda) mais?
Hélder Rosendo "É fundamental a presença continuada em feiras. Não é uma prova de velocidade, mas de fundo"


Hélder Rosendo, diretor-geral da P&R Têxteis, é da opinião que o setor deve abordar mercados pouco explorados, alternativos ao europeu. “Devemos reforçar a aposta em alguns países da América Latina e no Extremo Oriente. Por outro lado, a partir de certa fasquia coloca-se também um problema de dimensão e escala das maioria das nossas empresas, para atacar mercados de grande dimensão, como por exemplo o mercado dos Estados Unidos. O TTIP irá seguramente ser um elemento facilitador, mas é preciso ter bem presente a dimensão do mercado em causa, para poder desenvolver uma estratégia de crescimento sustentada e que não comprometa a capacidade de resposta e a qualidade do serviço”.

Outros dos ingredientes sugeridos por Hélder Rosendo é o de manter a dinâmica de promoção internacional e a presença continuada nas principais feiras internacionais, “tendo sempre presente que não se trata de uma prova de velocidade, mas de fundo”.

Vítor Paiva, sócio-gerente da empresa poveira Damel, também coloca a tónica na promoção e imagem. “Portugal necessita de promover tudo que se faz de bom, de potenciar empresas com nichos de mercado técnicos e muito específicos e mostrar os bons exemplos de desenvolvimento e inovação que praticamos. As marcas estrangeiras têm de perceber que vale a pena recorrer à indústria portuguesa não em busca de preços e mão-de-obra barata, mas sim alta tecnologia ao nível de produção/desenvolvimento de novos produtos”.

“Temos muitas empresas que merecem ser potenciadas porque estão ao nível das melhores do mundo.
O que fazer para exportar (ainda) mais?
Artur Soutinho "O caminho é apostar no serviço ao cliente, marcas próprias e produtos muito evoluídos"
Só precisam é de um pequeno empurrão para passarem para um nível superior e desta forma captar muito mais marcas e trabalho para Portugal”, adianta o sócio-gerente da Damel, que não se esquece do fator recursos humanos.

“Temos que valorizar as pessoas que trabalham na produção e fazer com que se sintam importantes para que possamos chamar sangue novo à ITV e, lentamente, irmos fazer a renovação de pessoal pois se assim não for dentro de poucos anos poderemos ter dificuldades ao nível do recrutamento”, remata Vítor Paiva.

O impacto do Brexit nas exportações da ITV ainda é uma incógnita. Paulo Vaz diz que ainda é cedo para fazer previsões: “A poeira tem de assentar. Em tese, a saída do Reino Unido da União Europeia deverá ter efeitos negativos, mais ou menos vincados: a queda da libra limitará as importações do Reino Unido, incluindo as de Portugal e do nosso setor. O Reino Unido é o terceiro destino das nossas exportações e aproximava-se dos 500 milhões de euros este ano. É muito provável que tal não venha a suceder e se verifique mesmo um retrocesso nas vendas para aquele país”.

Já para Hélder Rosendo, “o maior efeito do Brexit será efetivamente o fim do Reino Unido tal como o conhecemos”. No entanto, acrescenta, “é demasiado cedo para prever seja o que for ao nível do futuro quadro de relações da UE com a Inglaterra e para antever a profundidade e o impacto das alterações que seguramente irão ocorrer”.

Segundo Artur Soutinho, as repercussões importantes do “inesperado Brexit” só serão conhecidas nos próximos meses. Por isso, “caso o Reino Unido consiga uma solução política estável, não populista, espero que no final do ano já tenham sido encontradas as soluções de relacionamento comercial com a UE que permitam voltar ao ‘business as usual’”. Na opinião do CEO do grupo Moretextile, “O Reino Unido é importante para a UE. Mas a UE é ainda mais importante para o Reino Unido do que o Reino Unido para a UE”

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