Sónia Pinto (MODATEX) não tem dúvidas: é um elemento diferenciador. Bárbara Coutinho (MUDE) acrescenta que é como Deus, ou seja está em toda a parte. Maria Gambina (ESAD) revela que a Inditex anda a recrutar na sua escola. Braz Costa (CITEVE) garante que sem Design não há produto que venda - e sem produto que venda não há indústria. “Para a indústria do século XXI, o Design é provavelmente mais importante que a Ciência e Tecnologia, afirma João Vasconcelos, secretário de Estado da Indústria. Paulo Coelho Lima (Lameirinho) assina por baixo
O design é tão importante para a indústria como o paladar para o vinho. O autor desta desempoeirada e feliz comparação é João Vasconcelos, 40 anos, o leiriense que trocou a direção executiva da Startup Lisboa pelo lugar de secretário de Estado da Indústria no Ministério da Economia titulado por Manuel Caldeira Cabral.
“Há vários setores da indústria, como a têxtil e vestuário, calçado, cerâmica ou mobiliário, que crescerão mais rapidamente na cadeia de valor se apostarem no design de produto industrial e da marca”, garante Vasconcelos, lamentando a inexistência de uma política pública de apoio ativo à introdução do design e arte na nossa indústria (o Governo Passos extinguiu o Centro Português do Design).
“De facto o paladar é tão essencial para o vinho, como o design da garrafa e do rótulo é essencial para vendê-lo, ainda que tenha o melhor paladar. Sem design não há produto que venda, sem produto que venda não haverá indústria”, contra-argumenta o director-geral do Centro Tecnológico das Indústrias Têxtil e do Vestuário de Portugal (CITEVE).
Braz Costa também lamenta a falta de políticas públicas facilitadoras do desenvolvimento industrial, mas a vários níveis e não apenas no que concerne à componente design. “Políticas públicas de apoio ativo à indústria, sublinho ativo, fazem falta, sobretudo face às opções políticas de incentivo à reindustrialização. De resto, como faz falta que haja consensos transetoriais sobre o que faz sentido fazer de forma especializada e o que faz sentido fazer de forma transversal em matéria de design com foco na indústria”, sublinha.
Quanto à extinção do CPD, Braz Costa atira: “Por vezes existe a tendência para a criação de organizações pomposas e dispendiosas, mesmo sem entender nem especificar a sua missão, nem os meios de que disporá. O CPD estava economicamente desequilibrado e vazio de missão há muito mais de uma década”.
O secretário de Estado da Indústria, João Vasconcelos, vê como um exemplo luminoso a seguir o UK Design Council, que interfere no processo de fabrico do produto industriais britânicos, recomendando o uso e abuso do design e materiais reciclados.
Com dois mantras na cabeça e plano de ação - Design e Indústria 4.0 -, Vasconcelos está decidido a inverter o atual estado de coisas no nosso país nestes particulares, pois não tem dúvidas de que o segredo para a prosperidade do tecido empresarial nos países mais desenvolvidos do mundo tem sido o casamento harmonioso entre arte, criatividade e indústria.
“Para a indústria do século XXI, o design é provavelmente mais importante que a ciência ou a tecnologia. O design é um fator fundamental e não estou a falar apenas da estética. As confeções do futuro serão ambientalmente neutras. O design e a criatividade terão de estar de mãos dadas com o uso na produção de materiais biodegradáveis e reciclados. Estas são as grandes apostas”, afirma.
João Vasconcelos, que durante seis anos foi vice-presidente da ANJE, tem ideias concretas para usar o design na batalha das exportações, como a de trabalhar com designers estrangeiros para facilitar a penetração nos mercados externos.
João Vasconcelos
“O design é tão importante para a indústria como o paladar para o vinho”
“Se queremos vender fatos nos países nórdicos por que é que não usamos criativos desses mercados, que conhecem melhor do que ninguém, o gosto e idiossincrasias locais, para melhor vendermos os nossos produtos?”, exemplifica.
Einstein queixava-se de que era mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito. O preconceito que João Vasconcelos está empenhado em desintegrar é o de que só a ciência e tecnologia contam na valorização de um produto.
“Nós sabemos fazer muito bem roupa, têxteis-lar, calçado, mobiliário. Nestes setores, ditos tradicionais, temos dezenas, senão mesmo centenas de empresas que estão ao lado das melhores do mundo. Há que continuar nesse caminho e isso implica investir cada vez mais em acrescentar arte, criatividade e design aos nossos produtos industriais”, conclui o secretário de Estado da Indústria.
Paulo Coelho Lima, 47 anos, administrador da Lameirinho e amigo de abraço de João Vasconcelos dos tempos da ANJE, assina por baixo estas declarações do secretário de Estado da Indústria: “O nosso produto vive muito do design, não só na estampagem mas também na tecelagem. Na cama, a criatividade é fundamental. Dantes, os clientes apareciam já com tudo quanto queriam pensado. Agora procuram-nos em busca de sugestões”.
A Lameirinho tem indoor nove designers, todos com formação média ou superior, uma equipa onde convivem harmoniosamente cabeças mais técnicas e outras mais criativas. Mas Paulo Coelho Lima acha boa a ideia de se socorrer de criativos locais para o desenho de produtos para mercados com gostos marcadamente diferentes dos nossos, como é o caso dos da Europa Central e do Norte.
O design está em todo o lado, “faz parte de todas as áreas da nossa vida”. Bárbara Coutinho, directora do MUDE - Museu do Design e da Moda, explica: “O design não está só na boa forma de um produto, mas também no seu uso. Nesta sociedade global é fundamental deixar entrar o design como uma disciplina aos diferentes níveis, desde a conceção de produtos até à comunicação dos mesmos”, sustenta.
E se o objetivo é conquistar mercados e aumentar ganhos de projeção, dita a lógica que “quanto melhor um produto for desenhado e comunicado, mais valor acarretará”. Falando assim, até parece que o tema é fácil. Mas não é. “É necessária, e urgente, uma discussão e uma definição mais clara de uma estratégia política e pública nesta área, que chame diferentes parceiros, públicos e privados, para que em rede possam concorrer para esse fim”.
A diretora do MUDE considera que a crise económica e financeira trouxe parceiros mais conscientes e responsáveis. Por isso, na sua opinião, faz todo o sentido um Conselho do Design, ou uma entidade com outra nomenclatura qualquer, que tenha a capacidade de dialogar com a realidade. “Tem que ser capaz de discutir novas estratégias, adequadas aos tempos que vivemos, e de promover efetivamente o design como uma disciplina fundamental no nosso dia-a-dia”, sublinha.
Do lado da ESAD - Escola Superior de Artes e Design de Matosinhos, Maria Gambina, designer e coordenadora da Licenciatura em Design de Moda, chama a atenção para a falta de apoio aos jovens e futuros designers:
“Tenho alunos que fazem parte da plataforma Sangue Novo da ModaLisboa e do Bloom do Portugal Fashion, alguns até já ganharam primeiros prémios, mas sempre que precisam de fazer uma lavagem industrial numa peça em denim, ou produzir uma malha tricot, as portas são-lhes sempre fechadas.
Paulo Coelho Lima
“O nosso produto vive muito do design, não só na estampagem mas também na tecelagem.”
As empresas não percebem que assim não estão a contribuir para o crescimento do design, criativo, nacional. Não têm a visão do retorno desse apoio, uma vez que estas plataformas têm sempre uma divulgação enorme, quer a nível nacional quer a nível internacional. E mais, que as ideias inovadoras que os jovens designers levam para a indústria é uma mais-valia para os seus próprios negócios ou marcas”.
O facto de o curso de Design de Moda ter a cada ano que passa mais alunos é motivo de grande satisfação para a docente Maria Gambina. Mais ainda quando o grupo Inditex (dono da Zara, Stradivarius, Pull&Bear, Massimo Dutti, Bershka e Oysho, entre outras) anda à caça de talentos na ESAD. “Este ano será a segunda vez que a Inditex vai à nossa escola captar alunos. Fomos a única escola em que pediram para realizar entrevistas”, revela orgulhosa.
Esta procura por parte do grupo de moda galego também prova que o original é melhor do que a cópia. “O grupo Inditex, que dá muito trabalho às fábricas de confeção portuguesas, já copiou muito. Só que neste momento não quer apenas cópias, está a pedir à indústria propostas de design. É evidente que se não há novidade, se não há criatividade, nem que seja num detalhe, não vende. Mesmo num básico é preciso haver design, quanto mais não seja na escolha dos materiais, dos botões, do acabamento interior. Às vezes, o design não está tão à vista, pode estar no toque”, argumenta.
No entanto, quem quiser singrar por conta própria pode estar certo que são muitos obstáculos pela frente. Existe o apoio na parte do desfile - no Portugal Fashion e na ModaLisboa -, mas depois falta o mais importante. Maria Gambina sabe bem que a moda não vive apenas da imagem. Por isso, acredita que “é mais importante para o designer estar numa boa feira internacional e ter um bom agente do que um desfile de moda”. E não compreende porque é que se insiste na criação de marcas quando existem marcas com valor, de designers consagrados, que podem ser apoiadas.
No Modatex - Centro de Formação Profissional da Indústria Têxtil, Vestuário, Confeção e Lanifícios também se ensina Design de Moda. A diferença entre os dois cursos é que na ESAD é uma licenciatura e no Modatex é um curso técnico profissional.
A diretora-geral do Modatex, Sónia Pinto, lembra que os empresários da ITV sabem há muito qual é o real valor do design no negócio: “É um elemento diferenciador que, aliado à qualidade dos produtos nacionais e à forte capacidade de resposta da indústria contribui para a criação de valor acrescentado. Recorde-se os centros de formação que deram origem ao Modatex, foram pioneiros na formação em termos de Design de Moda. E o que existe hoje é uma procura constante e crescente por parte dos empresários do setor em relação a este tipo de profissionais”.
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