2020 contornou todas as previsões. A pandemia não deixou ninguém indiferente e os planos escritos em janeiro viram-se rasgados a partir de março. Agora, a dois meses do final do ano, o balanço das empresas está ainda recheado de incógnitas, pontuadas por uma sensação de esperança e o esforço em reequilibrar os números. A adaptação rápida e a aposta em novos produtos e estratégias comerciais lançaram as bases para um período de retoma progressiva. Tudo dependerá agora dos últimos meses, com o Natal no centro de todas as esperanças.
Parece ter já passado uma eternidade, mas o ano de 2020 começou até com números positivos as têxteis nacionais. Em janeiro, um crescimento homólogo de 3% nas exportações e uma queda nas importações de 6% permitiam levantar um olhar esperança para mais um ano crescimento na indústria têxtil e de vestuário portuguesa. No entanto, todas as previsões seriam abaladas pelo terramoto Covid-19, que em fevereiro já se fazia sentir e em março assolou todos os mercados europeus.
“Enquanto houve confinamento não era possível ao mercado operar. Se as lojas estão fechadas, o público não compra e as marcas não fazem encomendas, afeta toda a cadeia de fornecimento”, lembra Antonino Pinto, administrador da Trimalhas, referindo-se aos meses que se seguiram, entre março e maio, em que toda a Europa adotou medidas de confinamento severo para travar a primeira onda da pandemia.
Para grande parte das empresas, 2020 ficará sempre marcado por esse período, em que os clientes refrearam a sua vontade de comprar. “A partir de março ficamos com uma ideia de que iriam existir quebras fortes, os nossos clientes de uma maneira geral estavam a diminuir as suas produções, o número de peças era menor”, explica António Cunha, Sales Manager da Orfama, empresa especializada na produção de vestuário.
Os apoios do Estado, como o lay-off simplificado, ajudaram a resistir ao primeiro impacto da pandemia, mas foi na adaptação a novos mercados, como a produção de equipamentos de protecção individual, ou a aposta em novas tecnologias de comunicação, que permitiram às empresas, pouco-a-pouco, reaquecerem as máquinas, manterem o contacto com os clientes e iniciarem a retoma da atividade. No mês de Agosto, as exportações têxteis regressaram ao saldo positivo, com um crescimento ténue (0,2%), mas um crescimento face a Agosto de 2019.
“A partir de um certo momento compensamos com a produção de máscaras. Era um produto novo, em que havia muita procura, e tal como várias empresas do sector apressamo-nos a apresentar produtos certificados de acordo com as exigências de saúde e segurança”, explica António Cunha. “No vestuário houve uma quebra substancial das encomendas. As máscaras permitiram-nos equilibrar um pouco as contas, mas ainda assim no final do ano esperamos uma descida entre 10 a 15%”, explica ainda.
Da mesma forma nos têxteis para o sector automóvel, como é o caso da Borgstena. “Contamos fechar este ano com uma quebra de vendas de cerca de 20% relativamente ao ano anterior, tendo os EPI’s atenuado a quebra em cerca de 3%”, antevê Joaquim Albuquerque, Business Development Manager da empresa de Mangualde
Entre os mais afectados pela pandemia contam-se sectores como o vestuário de cerimónia ou as marcas de moda que ainda não tenham uma operação online instalada. “O negócio da Givec esta vocacionado para um tipo de cliente que foi muito afectado pela pandemia.
Antonino Pinto
"Acreditamos que o ano pode fechar em linha com o ano passado, depende de novembro e dezembro"
É o retalho que não trabalha online e foi severamente punido com o período de confinamento”, afirma Cândido Correia, CEO da Givec, empresa de Barcelos, especializada na confecção de moda feminina e que atualmente detém três marcas: Bagoraz, Kalisson e Le Cabestan, presentes em centenas de lojas multimarca. “2020 não vai ser necessariamente positivo, devendo o volume de negócios cair uns 15 a 20% face ao ano passado”, antecipa o responsável pela empresa.
Também a Adalberto Estampados sentiu uma quebra acentuada no sector moda. “Perdemos cerca de 50% da produção durante estes meses, mas ao mesmo tempo mantivemos o negócio dos têxteis-lar e crescemos muito nos tecidos técnicos”, adianta a CEO da empresa, Susana Serrano. Em parceria com a Sonae, a têxtil de Santo Tirso criou a máscara MOxAD Tech, a primeira certificada com propriedades de inativação do vírus. A tecnologia está já a ser exportada para 30 países e faz parte do conjunto de projectos que permite à Adalberto olhar o fecho de 2020 com algum otimismo: “fechámos o ano passado com um volume de negócios de 25 milhões de euros, e esperamos talvez atingir os 30 milhões no final de 2020”, revela Susana Serrano
Para a marca Cristina Barros, da empresa trofense Blackspider, a expectativa é conseguir terminar 2020 em linha com o ano passado. “Sentimos alguma quebra, mas o final de 2020 será muito próximo a 2019”, antevê Marco Costa, diretor comercial e financeiro da empresa. “Para nós, o pior foi o cancelamento de muitas feiras profissionais onde abríamos novos mercados”, acrescenta. Para a marca de moda feminina, que opera também em lojas multimarca, a pandemia foi um verdadeiro balde de água fria, sobretudo por interromper um ano de verdadeira expansão internacional.
Nos primeiros dois meses, a empresa foi ainda a onze feiras internacionais – visitando dez países, entre a Europa e a América do Norte – mas o processo viu-se suspenso pelo confinamento generalizado. “Os nossos clientes habituais continuaram a comprar, com algumas variações, mas sem as feiras perdemos a hipótese de fechar mais contactos”, explica Marco Costa.
Também a Tricothius, confeccionadora que integra o grupo Valérius, reconhece que 2020 é um ano de abrandamento, mas o foco tem estado permanentemente na retoma. “Somos dos que arregaçamos as mangas e seguimos à procura de novas oportunidades”, afirma Teresa Marques Pereira, CEO da empresa. Para além da aposta em máscaras reutilizáveis certificadas, a Tricothius apressou-se a lançar a loja online para a marca Concreto, onde disponibilizou a colecção Primavera-Verão 2020, com portes de envio gratuitos para estimular as compras num momento de maior retracção. “Apesar da pandemia continuamos a acreditar que o decréscimo de faturação fortalece o espirito de afirmação dos projetos e das equipas”, comenta a CEO da Tricothius.
O grupo Somelos investiu também nas ferramentas digitais para responder ao impacto da pandemia e acentuar a diversificação de clientes.
António Cunha
"As máscaras permitiram-nos equilibrar as contas, mas no final do ano esperamos uma descida entre 10 a 15%"
“Não somos diferentes, claro que sentimos as alterações no mercado. Mas em tempos de incerteza, os clientes colocam menos encomendas e quantidades menores, e felizmente a estratégia do grupo já está orientada para isso, e não para os grandes volumes, o que nos fez sentir mais protegidos”, explica Paulo Melo, administrador do grupo têxtil.
Perante o confinamento e a interrupção de qualquer viagem internacional, o grupo investiu na criação de uma plataforma digital, a Somelos Digi, através da qual está a fazer apresentações individualizadas aos seus clientes. “Temos um portefólio com mais de dois mil clientes, neste momento o essencial é manter o contacto com todos, para que as encomendas no futuro surjam de vários mercados. Fomos os primeiros a nível mundial a apresentar uma colecção completa de camisaria homem, senhora e criança, através de uma aplicação 100% digital”, afirma o responsável do grupo.
No momento, todas as previsões ficam ainda em suspenso, pela sombra de um novo confinamento mais rigoroso durante o Natal, uma altura tão relevante para o retalho. “No nosso caso, acreditamos que o ano pode fechar em linha com o ano passado, com uma oscilação ligeira. Mas tudo vai depender de Novembro e Dezembro, que são meses essenciais para o comércio”, explica Antonino Pinto, da Trimalhas. Também António Cunha, da Orfama, deixa a mesma ressalva: “cada previsão que fazemos é dia-a-dia e tudo pode mudar. A época de Natal é crucial e estes dois meses vão definir o sentido dos mercados.”
Para além de 2020, a esperança dos empresários portugueses é que a pandemia tenha sido uma chamada de atenção para a excessiva dependência da Europa em relação aos mercados asiáticos. “Já tivemos alguns clientes novos. No Modtissimo, por exemplo, surgiram compradores da Alemanha, Holanda e Finlândia, que compraram pela primeira vez. Imaginamos que seja porque as marcas produzidas na Ásia estão a interromper as produções”, afirma Marco Costa. “Nota-se que existe esse interesse, com alguns contactos, mas ainda não se materializa em encomendas. Neste contexto, os clientes estão apreensivos, porque partir para uma mudança exige tempo e risco”, acrescenta António Cunha.
Antonino Pinto acredita em mudanças a curto-prazo, mas com pouco impacto em termos estruturais. “Talvez no momento se veja um benefício das empresas portuguesas, no espaço europeu somos o centro das produções. Mas depois vai predominar o critério do preço”, antevê. Paulo Melo vê a hipótese de algumas alterações nas cadeias de produção, mas de forma apenas parcelar: “As pessoas ficaram alerta para a dependência que existia e vão começar a colocar os ovos em vários cestos. Na Europa, em termos produtivos, o centro da indústria têxtil está em Portugal, temos de continuar a caminhar no sentido de nos afirmarmos no valor acrescentado e no saber-vender”, conclui.
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