O número de compradores é menor, mas ainda assim acima das expectativas. As normas de segurança e higiene marcam uma mudança de hábitos, mas já estão tão interiorizadas que se tornaram num não-assunto. A lotação máxima dos stands obrigou os expositores a agendarem as visitas de clientes habituais, mas continuam a aparecer novos contactos. As primeiras feiras desde o início da pandemia foram assim vividas pelos expositores portugueses: apesar do momento crítico e das muitas diferenças exteriores, os eventos mantiveram o seu papel de aproximar as empresas de novos mercados. E num contexto de incerteza, são um sinal do esforço colectivo em acelerar a retoma
Foram cerca de duas dezenas de empresas portuguesas que deram uma resposta afirmativa às primeiras convocatórias pós-quarentena. Depois de um período de desconfinamento gradual por toda a Europa, os meses de Agosto e Setembro marcaram o regresso, ainda que apenas em alguns mercados, das feiras físicas e dos contactos presenciais. Das matérias-primas à moda, os têxteis portugueses mostraram vontade e iniciativa em estar na linha da frente da retoma.
A primeira chamada da época coube à Supreme Kids, com dezenas de marcas de moda infantil a reunirem-se em Munique, entre 14 e 16 de Agosto. Marcaram presença três marcas portuguesas: Baby Gi, Meia Pata e Peter Jo Kids. Já em setembro, na Fabric Days, uma versão condensada da Munich Fabric Start, principal feira de tecidos do mercado alemão, que este ano se mudou para o espaço da MOC, em Munique-Riem, onde reuniu 300 expositores, entre os quais uma forte comitiva portuguesa composta pelas empresas Albano Morgado, Fitecom, Modelmalhas, Paulo de Oliveira, SanMartin, Somelos, Tessimax e Troficolor.
Em Itália, a histórica Milano Unica simbolizou, nos dias 8 e 9 de setembro, o regresso aos contactos presenciais para muitos compradores e empresários, não só italianos, mas também franceses – que com o cancelamento da Première Vision Paris, acorreram a Milão – e de outros mercados europeus. Pelas cores portuguesas, foram nove as empresas presentes: Albano Morgado, Lemar, Modelmalhas, Penteadora, Paulo de Oliveira, RDD, Riopele, Somelos e Tessimax.
Apesar do contexto difícil, a maior parte regressou com boas perspectivas.“Iamos a contar com uma realidade totalmente diferente, talvez com menos compradores”, lembra Baltazar Lopes, administrador da têxtil Albano Morgado, depois de ter estado tanto em Munique como Milão. “Participamos nas duas feiras e encontramos realidades distintas. Na Fabric Days a resposta foi muito positiva, tivemos sempre clientes no stand. Já a Milano foi mais fraca, porque é uma feira muito internacional e ainda não há compradores asiáticos ou norte-americanos”, explica.
O fluxo de compradores surpreendeu também Nuno Lemos, administrador da SanMartin, que partiu de Portugal com expectativas modestas. “Nunca esperava ter tanto movimento. A afluência foi menor, como é natural, mas ainda assim acima do que estávamos à espera”, revela, sobre a presença na Fabric Days. “Apesar de termos feito um grande trabalho de casa, com bastantes agendamentos, fomos surpreendidos por visitas de potenciais novos clientes, sobretudo alemães, holandeses e austríacos”, acrescenta.
Nuno Lemos
"As normas de segurança já estavam interiorizadas, toda a gente cumpriu de forma natural"
“As pessoas estão realistas, vai ser um caminho longo e complicado, mas o caminho é para a frente e não podemos baixar os braços”, reforça Gabriela Melo, diretora de criação e design na Somelos, que define a presença da empresa nestas primeiras feiras como um “sinal de apoio ao mercado e às próprias feiras, porque esta é a altura do sector mostrar dinamismo”.
Mas para além da mensagem de confiança, a Somelos faz também um balanço positivo do trabalho feito na Fabric Days e na Milano Unica: “Em Milão trabalhamos seguidinho, sempre com clientes no stand, só ao final do último dia sentimos um esfriar do movimento. Munique também foi muito positivo. Claro que os stands também foram reduzidos, mas conseguimos reunir com os nossos clientes e obter novos contactos”, afirma a responsável pela empresa.
Para João Carvalho, CEO da Fitecom, é importante passar uma imagem de força, para afastar a incerteza. “Toda a gente está com medo em relação ao futuro, mas há uma vontade em voltar à normalidade. E a vontade supera o medo, não tenho dúvidas”, garante. Nas duas feiras em que esteve presente, a empresa de lanifícios registou a visita de várias dezenas de compradores, que apesar do momento crítico continuam atentos ao mercado. "Em Paris, numa feira privada organizada pelo nosso representante, o stand da Fitecom foi visitado por 35 compradores. Em Munique foram cerca de 30. E estamos a falar de compradores objetivos, que sabem o que querem e que vêm à feira já com um plano traçado”, explica.
Na moda infantil, os expositores portugueses na Supreme Kids fazem também um balanço positivo da feira. “Apesar da atual conjuntura a feira tinha movimento, sobretudo de alemães, alguns austríacos e polacos. O saldo é positivo para nós”, refere Alfredo Moreira, diretor-geral da Baby Gi. “Tivemos encomendas e muitas pessoas interessadas. Visitas de compradores da Alemanha, Áustria, Polónia e Suíça. Correu-nos muito bem”, concorda Diogo Marques, responsável pelos mercados internacionais da Meia Pata, que faz já até planos para uma próxima edição. “O que nos disseram foi que em comparação com anos anteriores a feira teve muito pouca gente, o que nos leva a acreditar que temos definitivamente de voltar. Se nos correu bem neste formato, temos razões para acreditar que pode vir a correr ainda melhor”, conclui.
Prova da seriedade dos compradores e da vontade generalizada em retomar o ritmo pré-covid é a forma como as novas medidas de segurança já estão normalizadas e não desmotivam os contactos entre visitantes e expositores. “As normas de segurança já estavam interiorizadas, toda a gente cumpriu de forma natural.
João Carvalho
"Há uma vontade em voltar à normalidade. E a vontade supera o medo"
Nem sequer foram um assunto”, esclarece Nuno Lemos, da SanMartin, que elogia a organização da Fabric Days pela aplicação das novas regras: “A feira organizou-se muito bem, de uma forma tranquila, mas adequada ao novo contexto, muitos pontos com gel de desinfecção, espaços amplos, etc. Todas as pessoas tinham máscaras, alguns clientes usavam luvas, mas tudo de uma forma normal”, relata.
“Desinfetávamos as mesas e cadeiras, tínhamos a preocupação de respeitar a lotação dos stands e toda a gente compreendia. Notava-se que havia uma consciência em cumprir”, conta Gabriela Melo, sobre a experiência na Milano Unica. O stand da Somelos tinha uma lotação máxima de 12 pessoas, sendo que estavam presentes três pessoas da empresa. “Não se tornou um problema, foi gerido com naturalidade. As medidas de segurança já nem são uma questão”, comenta. Para a maior parte dos expositores, a lotação dos stands foi resolvida com o agendamento prévio dos clientes mais relevantes, distribuindo-os pelos vários dias.
A fechar o calendário deste ano, o MODTISSIMO reúne na Alfândega do Porto os vários sectores da indústria têxtil portuguesa, com 95% dos expositores habituais a marcarem presença. Uma feira que pode até beneficiar do contexto atual, tal como aconteceu na Fabric Days e na Supreme Kids, ao reunir o interesse dos compradores locais. “As feiras regionais, vocacionadas para os próprios países, ganharam importância. No nosso caso, o MODTISSIMO poderá ganhar uma relevância Ibérica com o cancelamento de vários eventos em Espanha”, refere Baltazar Lopes, Administrador da Albano Morgado.
A dificuldade em viajar – sobretudo para fora do espaço europeu – mantém-se como o principal entrave a uma maior atividade nas principais feiras internacionais. Grande parte das empresas confessa não ter mais feiras agendadas para os próximos meses porque simplesmente não existem opções. “A única feira que vamos fazer é o Modtissimo porque neste momento é a única no calendário. De resto ninguém sabe o que vai acontecer no início do próximo ano, esperamos que melhorem“, comenta Alfredo Moreira, da Baby Gi. Uma ideia partilhada, e até reforçada, por Diogo Marques: “Neste momento não temos mais feiras agendadas porque não existem. O nosso plano de internacionalização continua e consiste em atacar os mercados com todas as armas que temos: feiras, marketing, agentes comerciais aguerridos, tudo. Estamos a remar contra a maré”, vinca o responsável pelos mercados internacionais da Meia Pata.
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